segunda-feira, janeiro 30, 2006

Socio-exílio


Da desgraça de viver aqui

O mau fado fez-me nascer e viver aqui. Cresci no meio desta população e vi-a sempre fazer escolhas erradas. Erra-se por ignorância. Também se erra por ganância, mas segundo Platão sempre por ignorar o Bem. Mas o Bem de quem? O meu bem não são as vossas escolhas e tenho que viver aqui. Podia mudar-me para outro país e viver arredada desta vossa realidade onde calhei de vir parar. Eu não quero parar, não quero voltar para trás. Quero progredir. Poder escolher outra coisa. Viver outra realidade...Mas tenho que viver neste vosso tempo, logo haviam vocês de viver neste meu tempo. Eu nego querer as vossas escolhas: eu não votei Cavaco, eu não escolhi o Governo do PS do Sócrates, eu não escolhi antes os governos de Durões e Santanas... eu vivo há anos no entretempo das vossas escolhas e vão passar muitos anos até que descubram do vosso erro, da vossa ignorância. Eu não gosto de ver telenovelas nem os vossos programas nem me divirto nos vossos Centros Comerciais e Grandes Superfícies; eu não conheço os vossos ídolos, nem os quero conhecer. Quero-me longe de tudo o que admiram. Mas eu vivo aqui no meio das vossas construções e posso apenas fazer por evitá-las. Eu sou bombardeada com os vossos happenings, as vossas publicidades e propagandas,com as vossas notícias e as imagens com que não me quero relacionar. Torno-me anti-social porque o social é apenas apenas viver do vosso modo, partilhar das vossas escolhas, ter que cumprir as vossas leis e o vosso desrespeito delas, pagar por elas. Todo o dia eu sou visada pelos seus resultados. Eu sofro as consequências das vossas escolhas, corro o risco de ser conotada com o vosso mau-gosto. Procuro refugiar-me aqui no mundo das minhas ideias, distanciar-me da vossa falta delas. O vosso munduzinho real, desprovido de ideias de mudança, de progresso, de futuro... Eu quero acreditar na possibilidade de um novo mundo mais admirável que o vosso mas por outros motivos. Esse vosso fatalismo de que tudo tem que ser como é não é uma fatalidade, é uma falsidade, uma imagem que criaram, um artifício vosso para continuar a viver no vosso erro. A vossa tautologia mais perigosa: porque é, tem que ser. O que é, é! Eis a vossa justificação para toda a vossa impassividade, o alibi do vosso crime colectivo. Laissez faire, laissez faire! Nada pode ser mudado senão aos poucos, lutando contra a vossa resistência.
Eu, que tanto prezo o povo, a vontade popular, desprezo-vos ó maioria. Arrastas-me no teu destino perdido, desesperadamente escolhendo percursos erróneos agarrados ao momento, pensando com o próprio umbigo. E ao mesmo tempo ávidos por reestabelecer a estabilidade perdida que as suas escolhas originaram. Apanhados no destino que escolheram. E eu aqui, esperando a cada vossa escolha, a luz que o cego vê. É mentira! Eu já não espero nada de vocês. Sei que cada vossa escolha é sempre pior que a anterior. Procurarei resistir à vossa presença aqui em maioria. Confortar-me-ei com o meu conhecimento, com a minha previsão que me mantem avisada e alerta contra das tuas escolhas, para as regeitar. Gozarei o único dos direitos conquistados pela Revolução de Abril: o direito à livre expressão de ideias e pensamentos: e não me calarei diante aos vossos erros.Não pouparei os vossos pragmatismos e lideranças. Os vossos negócios escuros, as vossas guerras e falsidades, os vossos proveitos usurpados. Não perdooarei os vossos crimes nem a vossa desumanidade. No entanto serei arrastada tal como tu na loucura da tua destruição. Mas cada palavra contra ti será o ramo a que me agarro com unhas e dentes para resistir à enxorrada da vossa espécie. Outros livre-pensarão como eu à sua maneira, contra ti, ó maioria!

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