Nos últimos dias o governo tem veiculado a informação de que o desemprego está a descer no nosso país, baseando os números optimistas nos dois últimos trimestres e comparando-os com os do ano passado. Toda a gente sabe que nos meses que antecedem o Verão e durante a época de maior turismo, esse fenómeno é normal ocorrer, assim como é sabido que nos trimestres posteriores o desemprego volta a disparar. Trata-se de trabalho sazonal, precário e de curta duração. Uma vez terminada a época alta, as pessoas, na maior parte dos casos jovens que aceitam durante o período das férias trabalho ocasional, retomam as suas vidas. É por isso inaceitável que esse decréscimo fictício no número de desempregados seja usado para fazer propaganda do governo. Mas pior do que isto são outros métodos pouco honestos que estão a ser usados para falsear os números. Sei de quem tenha recebido um envelope do Centro de Emprego em plena época de férias, com um destacável para devolver ao respectivo centro caso a pessoa continuasse interessada em se manter inscrita como desempregada. No caso de o destacável não ser devolvido nos dez dias seguintes, a pessoa seria automaticamente retirada do Centro de Emprego. Este procedimento é absurdo por vários motivos: primeiro o desempregado inscrito no Centro de Emprego tem como dever participar ao centro que arranjou emprego e, se não o fez, deve continuar a ser considerado desempregado; segundo, porque não é durante o período de Verão, quando as pessoas se ausentam das suas residências que devem ser contactadas pelo correio. Em muitos destes casos, é provável que os sobrescritos tivessem ficado os dez dias numa caixa de correio que ninguém viu e que por esta via obscura muitas pessoas tenham ficado fora dos Centros de Emprego onde antes haviam perdido uma manhã inteira à espera da sua vez para se inscreverem, saindo de lá sem grandes expectativas de emprego. Tanto trabalho para se inscreverem; tanta facilidade para serem excluídas… é desta forma que as estatísticas animadoras com que hoje nos acenam foram conseguidas? Alguém aí acredita que de há um ano para cá foram criados em Portugal mais 48 000 novos postos de trabalho? Tudo mentira! Considero hoje os desempregados a classe não-trabalhadora mais importante para a contestação das políticas neo-liberais. Os desempregados são hoje o novo calcanhar de Aquiles do capitalismo. Para eles não há soluções concretas, apenas deploráveis truques de prestidigitação como estes que hoje se propagandeiam. Os desempregados são cada vez mais e tendem a aumentar; os desempregados já não podem ser vistos como uns vadios que não querem trabalhar: todas as classes trabalhadoras correm hoje o risco de verem os seus postos de trabalho extintos de um dia para o outro devido a uma mera reestruturação com vistas a tornar a sua empresa mais competitiva e mais lucrativa; os desempregados hoje em dia não são só as pessoas de pouca instrução ou de deficiente formação profissional. Muitos são licenciados, com experiência profissional, com conhecimentos de línguas e informáticos. Pessoas válidas que se encontram marginalizadas por não serem boys, ou por não terem padrinhos ou por não serem eternamente jovens. Na verdade, as novas oportunidades que o governo apregoa que visam empregar licenciados nas empresas em regime de estagiários destinam-se apenas a jovens cujo prazo de validade não ultrapassa os 35 anos. Os outros, mesmo obedecendo a todos os requisitos ficam excluídos, mesmo tendo concluído a licenciatura há menos de um ano e apresentando uma considerável experiência profissional.
É por isso que considero que os desempregados são a nova força de contestação para fazer frente às políticas neo-liberais. São muitos, são aptos, estão disponíveis a participar em todas as formas de luta, não têm nada a perder. Só precisam de se organizar. O ideal seria a criação de uma organização que contactasse e congregasse a crescente massa de desempregados, que se revelasse capaz de os mobilizar para todas as formas de luta possíveis e imaginárias, já que os trabalhadores estão demasiado comprometidos para o poder fazer. Os trabalhadores temem hoje a greve, o abaixo-assinado, a contestação. Temem perder os seus empregos já tão instáveis e encontram-se cheios de dívidas, comprometidos pelos empréstimos que contraíram. De mãos e pés atados, não é com eles que se pode contar para reivindicar ou contestar seja o que for. Os desempregados, pelo contrário, estão livres, disponíveis e desesperados, nada mais têm a perder.
Desempregados de todos os países: UNI-VOS!