Quando a Sócretina entrou no Palácio, já o Sr. Silva a esperava sentado no sofá.
- Bom dia Aníbal. Já cá estou – Afirmou ela enquanto se sentava ao seu lado – Sofá novo, viva o luxo. Mas ainda não tiraram o plástico.
- Coisas da Maria. Viu um prospecto, desses que metem no correio, e partiu-me a cabeça para o comprar. E, depois não me deixa tirar o plástico, diz que vem cá muita gente ao Palácio e que são todos uns porcos.
- Gand’a maluca que é essa tua Maria.
- Por falar em malucos. Então tu agora tiras-me o Costa do Governo. Pensei que ele era o teu homem de confiança.
- Tu sabes bem que o meu homem de confiança és tu – disse a Sócretina rindo-se enquanto cruzava dois dedos atrás das costas. – Mas teve de ser, tinha mesmo que ser ele.
- Medinho de perder a Câmara não é?
- Não, para ganhar aquilo qualquer um servia e, se perdesse, paciência. Eu é que já andava com o bicho atrás da orelha com ele. Era mais popular que eu nas sondagens e tu sabes que, amigos, amigos, mas poleiro só pode haver para um. E esse um, sou eu.
- Andava a dar-te facadinhas nas costas?
- Por falar em facadas. Que história foi aquela de, em vez de dizeres bem de mim por causa do aumento dos 2,1 que anunciámos, vieste com aquela do São Tomé. “Vamos esperar para ver”. Raios te partam, que nem o raio da Bíblia deves ter lido. É ver para crer, não esperar para ver. Tinhas era que me aplaudir.
- Não foi por mal, mas tu já sabes como aquele Manuel Pinho me irrita. Estava tão satisfeito, todo sorrisos e aos pulinhos, que eu não aguentei.
- Vê lá se não me estás a fazer a folha. É que tu e essa Ferreira Leite, não sei não.
- A minha Sócretina está com ciúmes, é? Sabes que não, que só tenho lhos para ti. Anda dai, vamos lá para dentro que estamos mais à vontade.
- Está bem, vamos lá. Se te portares bem ainda te trago um daqueles barretes de pele que eles têm lá Rússia. – ia dizendo a Sócretina enquanto fechavam a porta.
Contributo para o Echelon: Electronic Surveillance, MI-17
Caro Cretino:
Permita-me que o trate desta forma, mais familiar. Bem sei que todos o tratam por Sócretino, mas eu, devido ao stresse pós-traumático do combate, como hoje se diz, sinto um enorme desejo de o tratar desta forma, sinto-me assim uma pessoa mais próxima do seu restrito círculo de amigos. Cretino, deve estar aflito para descobrir porque é que estou a escrever. Não, escusa de ficar descansado, não é um novo golpe de estado. Os golpes, geralmente são feitos pelos militares de secretaria (funcionários públicos) e não pelos militares combatentes. A razão desta missiva é para lhe dizer que é um político com sorte. Se estivesse na oposição, nem quero pensar nas consequências, era um Regimento (inimigo) de comentadores a abrir fogo sobre o Governo eleito, no qual não faltariam o Vital Moreira, Manuel Alegre e o Francisco Louçã, entre outros, a dizer, nem mais um soldado para o Afeganistão. Como agora está V. Ex.ª à frente dos desígnios desta fraca gente, toda essa trouxa de formadores de opinião está do seu lado, tal como o Graça Moura estava ao lado do Cavaco nos tempos áureos desse trauliteiro. Pois bem, caro Cretino, nós, os militares, somos uns felizardos com a esquerda no poder. A seguir à implantação da república, lá fomos nós para França, levar cacetada que até fervia, mal treinados, mal equipados e sem perceber patavina do que ali andávamos a fazer. Pelo menos, ficámos a saber que havia uma terra em França que se chamava La Lys. Mais tarde, houve um seu ex-colega, de Santa Comba Dão, que nos mandou rapidamente para África e em força. Mais uma vez, sem equipamento militar digno desse nome, levámos no cabedal, de todos os lados e, também aí andámos sem perceber de que lado estava o inimigo, até que alguém disse e bem, … nem mais um soldado p’rás colónias…, tendo terminado assim o forrobodó. Houve alguns que fugiram, antes que se fizesse tarde, não cumpriram o serviço militar, não por medo, claro, Ah Heróis, fugiram porque eram contra aquela guerra, coisa que eu, idealista dos quatro costados, aprovei. Mas hoje, esta guerra, já não tem opositores no regime, esta é uma guerra boa. Sendo assim, Cretino, se os vir, isto é se não foram ainda para Argel, Paris França, ou Genebra, diga-lhes por favor, que estamos à espera deles, que venham também, e já agora que tragam um amigo. Segundo dizem os talibãs, nas montanhas, há lugar para todos. Para terminar, resta-me dizer que, mais uma vez, os equipamentos para o combate, ficámos sem eles, foram comprados mas, para uso exclusivo da GNR no Iraque e da PSP, em Timor. E ainda bem Cretino, manda-os colocar no jardim do teu palacete, pode ser que ainda um dia te venham a fazer falta para te levar ao aeroporto.
O teu soldado, Funcionário Público n.º 1