
Eu sempre defendi a escola pública e agradeço aos professores o seu trabalho de transmitirem conhecimentos e saber aos meus filhos. Nunca lhes pedi que os educassem, essa é uma função minha como pai. Nunca desejei colocar os meus filhos em escolas privadas porque penso que é na escola pública, na diversidade cultural e na vida real que eles devem crescer. Fico triste em ver essa escola pública que eu considero fundamental para o país ser transformada numa fábrica de mão-de-obra barata para servir os patrões e os senhores deste país.
Neste momento não posse deixar de pensar se não deverei retirar os meus filhos deste sistema de ensino, se não deverei considerar fazer um sacrifício para os colocar numa escola privada onde tenham a possibilidade de não acabarem num qualquer curso profissionalizante ou na caixa de um supermercado. Estou triste por sequer ter de considerar ir contra aquilo que são as minhas convicções, mas será que é esta a escola pública onde quero ter os meus filhos?
Sempre apoiei a luta dos professores, não por dai retirar qualquer beneficio mas por eles terem razão naquilo que exigiam. Vê-los atirar com a toalha ao tapete faz-me ficar triste. Estou zangado e confuso. Preciso de dormir sobre o assunto e pensar nas consequências que tudo isto pode ter. Sinto-me traído mesmo não sendo professor. Sinto-me triste por mim, pelos meus filhos, pelos professores que tanto lutaram e por este país que cada dia se enterra mais na lama da miséria e que continua a perder o seu futuro. Valerá a pena lutar? Valerá sequer a pena estar para aqui a perder tempo a dizer o que penso? Se calhar não vale, se calhar devo é fazer como muitos outros, aparvalhar à frente de uma televisão, deixar de pensar e de me preocupar e viver para mim esquecendo os problemas dos outros. Que ganho eu com isto a não ser acalmar a minha conscienciazinha. Como tenho o engenho e a arte de outros deixo aqui um excerto do texto do “FMI” do José Mário Branco.
"Mãe, eu quero ficar sozinho... Mãe, não quero pensar mais... Mãe, eu quero morrer mãe.
Eu quero desnascer, ir-me embora, sem ter que me ir embora. Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe? Diz, são coisas que se me perguntem? Não pode haver razão para tanto sofrimento. E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar. Partir e aí nessa viajem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar...
Assim mesmo, como entrevi um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o azul dos operários da Lisnave a desfilar, gritando ódio apenas ao vazio, exército de amor e capacetes, assim mesmo na Praça de Londres o soldado lhes falou: Olá camaradas, somos trabalhadores, eles não conseguiram fazer-nos esquecer, aqui está a minha arma para vos servir. Assim mesmo, por detrás das colinas onde o verde está à espera se levantam antiquíssimos rumores, as festas e os suores, os bombos de lava-colhos, assim mesmo senti um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o bater inexorável dos corações produtores, os tambores. De quem é o carvalhal? É nosso! Assim te quero cantar, mar antigo a que regresso. Neste cais está arrimado o barco sonho em que voltei. Neste cais eu encontrei a margem do outro lado, Grandola Vila Morena. Diz lá, valeu a pena a travessia? Valeu pois.
Pela vaga de fundo se sumiu o futuro histórico da minha classe, no fundo deste mar, encontrareis tesouros recuperados, de mim que estou a chegar do lado de lá para ir convosco. Tesouros infindáveis que vos trago de longe e que são vossos, o meu canto e a palavra, o meu sonho é a luz que vem do fim do mundo, dos vossos antepassados que ainda não nasceram. A minha arte é estar aqui convosco e ser-vos alimento e companhia na viagem para estar aqui de vez."
Contributo para o Echelon: Electronic Surveillance, MI-17